sábado, 2 de maio de 2009

A Prova da evolução!

Ah! A porta abriu, e ao contrário de muitas portas que se abrem como uma boa oportunidade, esta se abriu para o cansaço e a certeza de que o dia não ia terminar tão bem quanto começou. Ao menos eu estava defronte a ela, a única coisa que precisaria era levantar a perna, subir os degraus e deixar que a multidão que vinha logo atrás me levasse em direção ao cobrador, a única barreira que existia antes do meu mergulho naquele mar de gente.

Com minha casa nas costas, segurada por duas alças e ocupando o mesmo espaço que uma pessoa, fui atravessando entre aqueles corpos tão cansados quanto o meu, como uma agulha a passar pelo tecido, até me perceber em um lugar que parecia ser mais confortável. Mal coloco a mochila entre as pernas, numa tentativa de preservá-la, a pessoa sentada a minha frente decide se levantar e embarcar naquela onda de corpos entrepostos, tamanha era sua pressa que mal pude perceber seu rosto, ou até mesmo se era homem ou mulher, só pude perceber aquele vazio e a liberdade que a cadeira vazia na minha frente proporcionava. Dei um passo à frente, olhei pro lados, e vi o quanto as pessoas me invejavam, por ter conseguido um lugar ao sol, ou melhor, ao vento entorpecente que vêm por entre aquelas janelas empoeiradas.

Ah! Só pode ser o vento torpe batendo no rosto, somado à correria de um dia inteiro, que me deixa letárgico, sonâmbulo . . .sonhador. . .

Só quando ouço um "Oi" advindo com um leve remelexo no ombro, que me assusta e me faz perceber que tinha me rendido ao sono. Ainda embriagado pelo sono, meus olhos tentavam se acostumar com a luz, e perceber aquele rosto que em outros tempos já tinham me feito suspirar, passar noites mal durmidas, me tirar do meu eu, enfim... , passar por tudo aquilo que os apaixonados mal correspondidos passam.

Mas como disse: "Em outros tempos", tempos que me envergonho, que somente servem como prova da evolução humana e do crescimento das pessoas.

Naquela hora, meio indiferente, disse um "Oi" inaudível, que servia apenas como forma de mostrar que a educação que recebi não ia ser em vão , e voltei a mergulhar no meu sono com a certeza de que ele era bem mais interessante e bem mais importante que um coração ferido e já cicatrizado.

3 comentários:

  1. Hum. Muito bom, Aurélio.
    Muito bom mesmo o texto.

    Já leu as HQ's do Alan Moore?
    hahahaha.

    Abraço, cara.

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  2. Louvados os que possuem a coragem de expor a alma - ou o coração moribundo - tão intimamente sem perder a sensação catártica das palavras!

    Foi o que você fez, cara.
    Parabenizo pela inspiração.

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  3. esse texto ficou muito bom!! parabens!!
    ;*

    Marina Sérvio

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